Federação dos Hospitais, Laboratórios, Clínicas de Imagem e Estabelecimentos de Serviços de Saúde no Estado de Goiás

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PrEP injetável contra o HIV: o que é o lenacapavir e qual a situação no Brasil

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Desde janeiro de 2025, o Brasil conta com uma nova alternativa para a prevenção do HIV: o lenacapavir, medicamento utilizado como profilaxia pré-exposição (PrEP) em formato de injeção semestral. Diferentemente da PrEP oral, que exige o uso diário de comprimidos, o lenacapavir concentra a proteção em duas aplicações ao ano, realizadas em serviços de saúde habilitados.

A autorização para uso no país foi concedida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), com base em estudos internacionais que demonstraram elevada eficácia do medicamento em pessoas sem HIV, mas com maior risco de exposição ao vírus. A nova tecnologia amplia as estratégias de prevenção combinada, oferecendo mais flexibilidade e possibilidade de adesão para diferentes perfis de usuários.


Qual a diferença entre HIV e aids?

O HIV é o vírus que atinge o sistema imunológico, comprometendo células responsáveis pela defesa do organismo. Quando a infecção não é acompanhada e tratada, pode evoluir ao longo dos anos para a aids, estágio em que a imunidade se encontra bastante reduzida, facilitando o surgimento de doenças oportunistas. Assim, HIV refere-se à infecção pelo vírus, enquanto a aids corresponde à síndrome que pode se desenvolver em casos sem controle adequado.

Atualmente, os tratamentos disponibilizados gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) permitem que muitas pessoas que vivem com HIV mantenham carga viral indetectável. Nessa condição, conforme evidências científicas consolidadas, não ocorre transmissão sexual do vírus. Esse conceito, conhecido como “indetectável = intransmissível” (I=I), reforça o tratamento como ferramenta fundamental tanto para o cuidado individual quanto para a proteção coletiva.

A transmissão do HIV ocorre principalmente por relações sexuais sem preservativo, compartilhamento de agulhas e seringas e da mãe para o bebê durante a gestação, o parto ou a amamentação, quando não há assistência adequada. Contatos cotidianos, como abraços, beijos, uso compartilhado de objetos ou transporte público, não transmitem o vírus. A prevenção envolve estratégias biomédicas, como PrEP e tratamento, aliadas a medidas comportamentais, como o uso de preservativos e a testagem regular, que é oferecida gratuitamente pelo SUS.


Como o lenacapavir atua na prevenção do HIV?

O lenacapavir é um antirretroviral que atua interferindo no capsídeo do HIV-1, estrutura que protege o material genético do vírus. Ao atingir essa estrutura, o medicamento compromete etapas essenciais do ciclo de vida viral, dificultando a entrada do HIV nas células e sua multiplicação no organismo.

Na estratégia de PrEP, o medicamento é administrado por via injetável a cada seis meses. Após a aplicação, ele mantém níveis estáveis no organismo por um período prolongado. Caso ocorra exposição ao vírus durante essa janela de proteção, a presença do lenacapavir reduz significativamente a chance de infecção. Ensaios clínicos internacionais registraram taxas muito baixas de novas infecções entre pessoas que seguiram corretamente o esquema de aplicação.

Apesar da praticidade, o uso do lenacapavir exige acompanhamento contínuo, com consultas regulares, realização de exames e orientação profissional, além da manutenção de outras práticas preventivas, como o uso de preservativos.


Quem pode utilizar o lenacapavir como PrEP?

A indicação do lenacapavir costuma priorizar pessoas com maior risco de exposição ao HIV, como indivíduos com múltiplos parceiros sexuais, casais sorodiferentes, trabalhadores do sexo, homens que fazem sexo com homens, pessoas trans e usuários de drogas injetáveis. A indicação, no entanto, é individualizada e depende de avaliação clínica realizada por profissionais de saúde.

Entre os critérios gerais estão:

  • Resultado negativo para HIV antes do início do uso;
  • Idade mínima de 12 anos;
  • Peso mínimo de 35 kg;
  • Comparecimento periódico para novas aplicações, exames e monitoramento de possíveis efeitos adversos.

A avaliação clínica também considera histórico de alergias, possíveis interações medicamentosas e a presença de outras infecções sexualmente transmissíveis que necessitem de tratamento.


Lenacapavir será ofertado pelo SUS?

A aprovação do medicamento pela Anvisa não implica distribuição imediata pelo Sistema Único de Saúde. Para que o lenacapavir seja incorporado à rede pública, é necessária a avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), que analisa critérios como eficácia clínica, custo-benefício e impacto orçamentário.

O custo do medicamento é um dos principais desafios. Atualmente, o valor praticado no mercado internacional é elevado, o que dificulta a adoção em larga escala por sistemas públicos. No entanto, estudos independentes indicam que, com produção em maior escala, o custo poderia ser significativamente reduzido. Pesquisa publicada em 2025 na revista The Lancet estimou que duas doses anuais poderiam ser produzidas por cerca de 25 dólares.

Antes de qualquer incorporação ao SUS, o preço máximo do medicamento deve ser definido pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED). Paralelamente, o Ministério da Saúde mantém negociações com a farmacêutica responsável, buscando condições que tornem o fornecimento viável e sustentável para o sistema público.


O papel do lenacapavir na prevenção combinada

A PrEP injetável não substitui outras estratégias de prevenção ao HIV. O uso de preservativos continua sendo essencial para reduzir o risco de infecção pelo HIV e por outras infecções sexualmente transmissíveis, além de prevenir a gravidez. A PrEP oral permanece disponível para pessoas que preferem ou se adaptam melhor ao uso diário de comprimidos.

A prevenção combinada envolve:

  • Testagem regular para HIV e outras ISTs;
  • Avaliação individualizada da melhor estratégia de PrEP;
  • Uso consistente de preservativos;
  • Acompanhamento periódico em serviços de saúde.

Ao ampliar o conjunto de opções preventivas, o lenacapavir representa um avanço importante. No entanto, seu impacto depende de políticas públicas eficazes, serviços estruturados e ações que enfrentem desigualdades de acesso, estigma e barreiras culturais, garantindo que a inovação chegue de forma equitativa às populações mais expostas ao HIV.

Fonte: Correio Braziliense